terça-feira, 23 de janeiro de 2018

EXUMAR O “ANTIGAMENTE” | A antipatia de Rio pela maior equidade social

EXUMAR O “ANTIGAMENTE” | A antipatia de Rio pela maior equidade social

As sondagens continuam a demonstrar a ineficácia dos permanentes esforços da comunicação social, das direitas parlamentares e do selfieman para demolirem o apreço com que o eleitorado vai reconhecendo os esforços do governo para propiciar melhor qualidade de vida à maioria da população. 

Ao anunciar os resultados do estudo da Eurosondagem Rodrigo Guedes de Carvalho exultava por dissociar o PS da maioria absoluta, mas convenhamos, que essa pressentida satisfação não terá grande fundamento. Salvo se alguma grande catástrofe vier a virar do avesso o atual contentamento dos portugueses com a solução política encontrada neste quadro parlamentar, tudo aponta para a forte possibilidade de os 33,9% que as direitas hoje valem em conjunto ainda mais se apouquem. Porque é o próprio Rui Rio a reconhecer a turbulência interna, que a sua vitória suscitou, morrmente no forte apego à irrisória sinecura, que Hugo Soares não quer largar.

Haverá, porém, outro lado por onde se deverá combater as pretensões do ex-autarca do Porto: são os seus mais próximos apaniguados a considerarem fundamental o abandono da lógica redistributiva  ao discutirem-se os investimentos para o pós 20/20. Tudo o que lhes possa cheirar a maior justiça na distribuição de rendimentos será o equivalente ao sulfuroso Demo. O tal por que tantos deles suspiram...

Publicado por jorge rocha  em Ventos Semeados, 19.01.2018
PORTUGAL/UE | As razões europeias do Dr. Rangel

PORTUGAL/UE | As razões europeias do Dr. Rangel


A lista transnacional nunca vai ser aprovada porque revelaria demais sobre os políticos que dominam a Europa.

Francisco Louçã* | opinião

Paulo Rangel, que exibe intervenções televisivas assaz ansiosas, mobiliza na escrita um alter-ego com um pensamento estratégico argumentado, reivindicando-se de uma direita clássica e nisso mesmo revelador de tensões e alternativas. Aprecio o esforço denodado, sobretudo por não estar de acordo com a prosa. Mas foi ele quem me alertou, e porventura a outros leitores, para essa parte de um comunicado da cimeira de governantes mediterrânicos que anuncia uma lista transnacional europeia nas próximas eleições.

A ideia nada tem de novo, Rangel diz-nos mesmo que foi um seu entusiasta até ter arrefecido sobre o assunto. É uma das armas do arsenal de Macron e, por deferência ou convicção, os governantes do Sul carimbaram o comunicado. Faz parte também daquela classe de ideias europeístas que ninguém leva demasiado a sério, mas que ficam bem num discurso enlevado sobre o destino mítico dessa Europa encantadora, raptada por um tal Zeus, disfarçado de potente touro para multiplicar a prole. E que toda a gente sabe que não vai ser concretizada, por razões imperativas: seria necessário que todos os países membros aceitassem mudar a sua lei eleitoral, sem qualquer excepção, já para não mencionar que teríamos assim o PSD e o CDS, ou Merkel e Rajoy, a fazerem uma lista continental com Orban, Berlusconi e outras companhias menos recomendáveis. A lista da direita seria um jardim zoológico. E a dos partidos socialistas europeus seria um problema: será que Macron imporia um seu ministro à frente dessa lista, depois de ter destruído o PS francês? De facto, a lista transnacional nunca vai ser aprovada porque revelaria demais sobre os políticos que dominam a Europa.

Rangel acrescenta outras razões ainda mais substanciais para contrariar a ideia. Três: se se quer europeísmo institucionalista, então a lista europeia é um ataque ao federalismo (nada disso existe em federações e confederações, como no Brasil, Estados Unidos ou Suíça, porque precisamente contraria a ideia federadora); uma lista europeia alarga o fosso entre eleitos e eleitores e cria uma classe de eurodeputados de primeira; e promove o populismo contra um gato de rabo de fora da dissolução das representações nacionais. Ou ainda, que para Portugal seria péssima solução, sendo evidente que as listas seriam encabeçadas por figurões dos países com mais eleitores.

Que o primeiro-ministro tenha assinado o texto, até se compreende. Ele sabe que a proposta é frívola e inconsequente, mas não está para uma maçada dentro de portas. O PS, para concluir os acordos com o Bloco e o PCP, retirou do programa de governo as suas propostas de alteração da lei eleitoral (os círculos uninominais, destinados a fazer o PS e o PSD ganharem na secretaria) e se, à sorrelfa, sem consulta e decerto sem acordo, propusesse agora tal lista europeia num pacto, aliás improvável, com a direita, a ideia só poderia ser considerada como um ataque aos seus parceiros. Costa, homem avisado, não o fará, ponto final.

Fica o problema principal. Por que é que algumas lideranças europeias jogam este jogo, para fingir soluções que logo vão abandonar por inexequíveis? Querem ser levados a sério por proporem o que eles próprios não levam a sério? Quando sobra a estratégia de fumo, fica tudo claro. Mas revela-se uma cultura: os eurocratas acham mesmo que na Europa somos, ou devemos fingir ser, uma única nação a caminho de um único Estado, e vangloriam-se de cada passo, simulado que seja, para substituir as democracias nacionais por uma transcendência, esse terreno em que se movem tão bem os conciliábulos e interesses. Gostariam assim de rejeitar a Europa que pode ser, em nome da que lhes convém. Mas tenha calma, a lista transnacional é só jogo político e brincadeira de carnaval.

*Artigo publicado no jornal “Público” em 20 de janeiro de 2018

Em Esquerda.net | Francisco Louçã é professor universitário e ativista do Bloco de Esquerda.

Foto: Paulo Rangel, em RTP
PORTUGAL "FIZZ" | Orlando Figueira: “Fiz o que fiz e voltaria a fazer”

PORTUGAL "FIZZ" | Orlando Figueira: “Fiz o que fiz e voltaria a fazer”


Orlando Figueira defende legalidade do arquivamento do processo de Manuel Vicente

Grande parte da sessão matinal desta terça-feira no Campus da Justiça, sobre o julgamento da Operação Fizz, foi preenchida com a discussão à volta da decisão de Orlando Figueira em arquivar o processo de Manuel Vicente, o ex-vice presidente de Angola.

O juiz Alfredo Costa quis saber porque razão o ex-procurador não só arquivou em tempo recorde as suspeitas contra Manuel Vicente mas sobretudo porque mandou devolver, destruir e guardar uma cópia das declarações de rendimento de Vicente. "Foi uma decisão tecnicamente irrepreensível", justifica Orlando Figueira, enquanto por sua vez o juiz considera-a "bastante discutível".

Vicente estava a ser investigado por branqueamento de capitais depois de ter comprado um apartamento no Estoril Residence por três milhões de euros.

O advogado Paulo Branco, também arguido no processo, fez juntar uma declaração de rendimentos e um registo criminal limpo, por isso Orlando Figueira mandou não só arquivar as referências a Manuel Vicente como também mandou destruir as declarações de rendimento. "Porquê?", perguntou o juiz. "A reserva da vida privada é um princípio sagrado", respondeu por mais de uma vez Orlando Figueira.

Contudo, o agora acusado de corrupção guardou para si uma cópia da referida declaração num cofre na Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa. "Porquê?", quis mais uma vez saber o juiz. "Porque no DCIAP desaparecem documentos e por uma questão de segurança", respondeu o arguido.

Hugo Franco | Rui Gustavo | Expresso | Foto: João Relvas/Lusa
PORTUGAL | Quem educa a Supernanny?

PORTUGAL | Quem educa a Supernanny?


Pedro Tadeu | Diário de Notícias | opinião

Não se põe uma criança a chorar frente a um milhão de pessoas. Não se disciplina uma criança frente a um milhão de pessoas. Não se ralha a uma criança frente a um milhão de pessoas. Não se discute a educação de uma criança frente a um milhão de pessoas.

Não se discute o amor dos pais de uma criança para uma plateia de um milhão de pessoas. Não se faz de um quarto de uma criança o palco de um espetáculo ridículo para um milhão de pessoas. Não se faz de uma criança um ator amacacado da sua própria personalidade, só para conseguir entreter um milhão de pessoas.

Não se inculca, condiciona, manipula, negoceia, chantageia, castiga, premeia ou envergonha uma criança frente a um milhão de pessoas. Não se explora, para gozo de um milhão de pessoas, a imaturidade, a inocência, a infantilidade de crianças inconscientes, inconstantes, incoerentes, irresponsáveis e, por tudo isso, indefesas.

Não se faz negócio, comércio, tráfico de emoções com crianças que nunca podem estar preparadas, precisamente por serem crianças, para decidir, por si só, em consciência, se realmente é do seu interesse aceitar vender o riso ou a lágri- ma a um milhão de pessoas.

Não se mostra a um milhão de pessoas uma criança, aos berros, descontrolada, de raiva. Não se mostra a um milhão de pessoas uma briga, estúpida, de crianças irmãs.
Não se revelam os erros de uma criança a um milhão de pessoas. Não se divulgam os erros dos pais de uma criança a um milhão de pessoas.

Uma criança numa família disfuncional não é exemplo pedagógico para um milhão de pessoas.

Uma criança com pais incompetentes, doentes, amargos, deprimidos, gananciosos, egocêntricos, incautos, distraídos, enganados, esmagados ou pouco inteligentes não pode ser usada como modelo comportamental para um milhão de pessoas.

Uma criança com dificuldades de aprendizagem, de socialização, de agressividade, de timidez, de obediência ou de afirmação não pode ser exibida a um milhão de pessoas como exemplo sintético do mal psiquiátrico ou analítico do desvio psicológico.

Uma criança com problemas pessoais ou familiares deve ser ajudada, sim, mas não deve ver o seu problema íntimo, intransmissível, único, ser transformado num anátema eternizado para o resto da vida através da exposição a um milhão de pessoas das suas dores, sejam superficiais, sejam profundas.

A alegria, a tristeza, o êxito, o fracasso, a angústia, a candura, a malícia, a perversidade, o carácter de uma criança não é assunto para ser debatido por um milhão de pessoas como quem discute o enredo de uma telenovela.

O problema da Supernanny, com o seu casaquinho vermelho, as sobrancelhas arrebitadas e os maneirismos queques, qual diabinho simpático, não são as múltiplas ideias que ela tem sobre a educação das crianças e das suas famílias. O problema da Supernanny é ela não ter recebido educação essencial para reter uma única ideia ética sobre a era mediática.

Sendo assim, usando pedagogia antiga, proponho que para educar a Supernanny a obriguem a escrever, num quadro de ardósia, um milhão de vezes, tantos quantos os espectadores do seu programa, a seguinte frase: "A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro. A intimidade de uma criança não é um espetáculo giro..."
Segredos, mentiras e confusão USA no Norte da Síria

Segredos, mentiras e confusão USA no Norte da Síria

Thierry Meyssan*

Os anúncios e desmentidos da Administração Trump sobre os movimentos militares no Norte da Síria revelam um segredo negro. Paradoxalmente, a Turquia acaba por vir em socorro dos Estados Unidos para corrigir «o erro» dos seus funcionários superiores.

desmentido do Secretário de Estado, Rex Tillerson, a 17 de Janeiro, a propósito do Comandante-em-chefe do CentCom, General Joseph Votel, em 23 de Dezembro e do porta-voz da Coligação (Coalizão-br) Anti-Daesh, o Coronel Thomas Veale, em 13 de Janeiro, semeou a confusão.

Ele não satisfez a Turquia, a qual, após ter avisado o Encarregado de Negócios dos EUA, Philip Kosnett, a 10 de Janeiro, e preparado desde 13 de Janeiro uma operação militar em Afrin e Manbij, a lançou efectivamente no dia 20 de Janeiro.

Contrariamente às declarações de uns e de outros, a decisão dos EUA não era de criar um Estado soberano e independente no Norte da Síria —isso, é o projecto francês— mas, sim um Estado não-reconhecido, como o Puntland somali ou o Curdistão iraquiano. Esta última estrutura é absolutamente independente e, apesar da Constituição iraquiana, não responde às ordens do Iraque da qual faz, em princípio, parte. Além disso, ele dispõe das suas próprias embaixadas no estrangeiro.

A Força de Segurança da Fronteira (Syrian Border Security Force) devia oficialmente ser composta por 30. 000 homens, dos quais metade antigos membros das Forças Democráticas Sírias (Democratic Syrian Forces). Estes combatentes deviam ter sido treinados durante três semanas em técnicas de interrogatório e em detecção biométrica (scanning). Curso, esse, já frequentado por 230 cadetes.

Na prática, a outra metade devia ser composta por 15.000 antigos jiadistas do Daesh (E.I.), que teriam assim sido discretamente reciclados.

Na realidade, o Representante especial do Presidente Trump junto da Coligação, Brett McGurk, foi o advogado que participou, ao lado de John Negroponte e do Coronel James Stelle na criação do Emirado Islâmico no Iraque, em 2006. Ele foi encarregado, junto com o Coronel James Coffman, de prestar contas sobre esta operação secreta ao Presidente George Bush. Tratava-se de combater a Resistência iraquiana ao ocupante dividindo-a, para tal, em sunitas e xiitas e criando, assim, artificialmente uma guerra civil.

Após uma passagem por Harvard, Brett McGurk foi recolocado no Departamento de Estado junto de John Kerry. Ele participou na transformação do Emirado Islâmico no Iraque em Daesh (E.I.) e co-organizou em Amã a reunião preparatória para a invasão jiadista do Iraque, a 27 de Maio de 2014. Ele reorganizou o Iraque, e depois formou a Coligação Internacional encarregue de lutar… contra o Daesh.

Bom aluno, aceitou servir o Presidente Trump para pôr fim à organização jiadista que havia criado, e da qual tenta, hoje em dia, reciclar alguns combatentes.

O projecto da Força de Segurança da Fronteira diz muito sobre a seriedade dos milicianos do YPG, os quais professam o anarquismo suave de Murray Boochkin mas podem, sem qualquer escrúpulo, formar uma unidade conjunta com os assassinos do Daesh sob comando dos EUA.

Contrariamente às aparências, o ataque turco a Afrin, e provavelmente em breve a Mambij, foi aprovado, a 18 e 19 de Janeiro, pelo Estado-maior russo, que foi avisado pelo número 2 do regime, e chefe dos serviços secretos , o Director do MIT (Milli İstihbarat Teşkilatı), Hakan Fidan, vindo de propósito a Moscovo. Ele foi, aliás, facilitado pela retirada imediata das tropas russas da zona de combate.

Identicamente, a Turquia informou por escrito a Síria do seu ataque, mesmo se Damasco garante não ter recebido a carta.

O Presidente al-Assad, que não pode colocar o seu país em confronto com os Estados Unidos para parar a reciclagem de jiadistas, deixou a Turquia, membro da OTAN, encarregar-se disso.

O Presidente Trump não fora informado sobre o plano Votel-McGurk. O Secretário da Defesa, James Mattis, confirmou aos seus homens as instruções da Casa Branca contra os jiadistas. No entanto, Votel e McGurk ainda estão no terreno.

*Thierry Meyssan | Voltaire.net | Tradução Alva | Fonte Al-Watan (Síria)

Na foto: Brett McGurk
Facebook Kids: agora, em busca das crianças

Facebook Kids: agora, em busca das crianças


Maior rede social do mundo quer penetrar no universo infantil, a partir dos 6 anos. Por que isso implica riscos comportamentais, políticos e neuronais

Roberto Gonzalez, no CounterPunch | Outras Palavras | Tradução: Camila Teicher, do nosso Círculo de Tradutores Voluntários

Nos últimos meses, as empresas de redes sociais têm passado por escrutínios cada vez mais rigorosos por parte dos críticos de mídia, grupos de vigilância e comitês do Congresso dos Estados Unidos.

A maioria das críticas gira em torno de como Facebook e Twitter facilitaram a propagação de mensagens sediciosas criadas por agentes russos durante as eleições presidenciais dos EUA em 2016, com o intuito ostensivo de polarizar os eleitores americanos. Anúncios de autoatendimento, “bolhas de filtro” e outros aspectos das redes sociais tornaram a manipulação das massas fácil e eficiente.

No entanto, algumas pessoas estão manifestando preocupações mais profundas quanto aos efeitos sociais, psicológicos, cognitivos e emocionais dessas plataformas, particularmente quando impactam as crianças.

O Facebook, por exemplo, sofreu um ataque de um grupo improvável de críticos: alguns de seus próprios ex-diretores. Seus comentários coincidem com o lançamento do “Messenger Kids”, o mais recente produto da empresa. Segundo comunicados, seu público-alvo são crianças de 6 a 12 anos (o Facebook não permite que menores de 13 anos criem contas, assim como a maioria dos aplicativos de redes sociais).

Embora o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, tenha se comprometido recentemente a “consertar” a plataforma em 2018, o “Messenger Kids” revela uma agenda diferente: ir pra cima de uma nova geração de usuários, habituá-los à vida virtual, aumentar a participação no mercado e desenvolver fidelidade às marcas em um ambiente mercadológico altamente competitivo. O primeiro presidente do Facebook, Sean Parker, reconheceu no fim do ano passado que seus criadores o projetaram intencionalmente para consumir o máximo possível de tempo e atenção de seus usuários. Segundo Parker, os “likes” e as postagens servem como “um círculo vicioso de validação”, explorando a necessidade psicológica de aceitação social. “Só Deus sabe o que isso está fazendo com os cérebros das nossas crianças”, disse (em citação de Allen, 2017).

Por que os arquitetos do Facebook, Google Plus, Twitter e demais redes sociais recorreriam a essas técnicas? O modelo de negócios do Facebook se baseia na receita gerada pelos anúncios. Um dos primeiros investidores do Facebook, Roger McNamee (2018), escreveu recentemente:

Os smartphones mudaram completamente a dinâmica da publicidade. Em poucos anos, bilhões de pessoas passaram a contar com um sistema de geração de conteúdo para os mais variados fins, facilmente acessível 16 ou mais horas por dia. Isso transformou a mídia em uma batalha para captar a atenção do usuário o máximo possível… Por que pagar a um jornal com a esperança de chamar a atenção de uma determinada parcela de seu público-leitor se você pode pagar ao Facebook para alcançar exatamente o perfil de pessoas que deseja?

Sean Parker e Roger Mcnamee não são os únicos. O investidor e ex-vice-presidente do Facebook, Chamath Palihapitiya, admitiu, no mês passado, que se arrepende de ter ajudado a empresa a expandir seu alcance global (o Facebook tem mais de dois bilhões de usuários em todo o mundo e continua crescendo).

Criamos ferramentas que estão esfarrapando o tecido social, do funcionamento da sociedade… você está sendo programado”, disse Palihapitiya ao público na Stanford Graduate School of Business. “Nada de discurso cidadão, de cooperação; é desinformação, inverdade. E não é um problema dos Estados Unidos somente – não são as propagandas russas. É um problema global… Atores prejudiciais agora podem manipular grupos inteiros de pessoas para que façam qualquer coisa que você quiser. É realmente uma situação muito, muito ruim – (Palihapitiya, 2017).

Outro ex-diretor do Facebook, Antonio García-Martínez, veio a público no meio do ano passado com suas críticas às técnicas da empresa:

Se usar de forma muito inteligente, com diversas iterações de aprendizagem automática e tentativa e erro sistemáticas, um marqueteiro sagaz pode encontrar a combinação exata de idade, posição geográfica, hora do dia e preferências musicais e de cinema que determinam o vencedor demográfico de um público. A “taxa de cliques”- para usar o jargão do marketing – não mente… O Facebook tem e oferece segmentação “psicométrica”, cuja meta é definir a parcela do público que é particularmente suscetível à mensagem de um anunciante específico… Às vezes os dados se comportam de maneira antiética… A plataforma nunca tentará limitar esse uso de seus dados, a não ser que os protestos dos usuários atinjam um nível de intensidade impossível de ser silenciado. (García-Martínez, 2017).

Essas declarações são alarmantes, porém não são novidade.

Há anos os cientistas sociais alertam sobre como a tecnologia pode desencadear vícios comportamentais. A antropóloga do MIT Natasha Schüll, que conduziu uma pesquisa nos cassinos de Las Vegas por um período de mais de 20 anos, observou que os caça-níqueis puxam alguns apostadores para uma “zona automática” desorientadora (a pesquisa de Schüll se baseia no trabalho pioneiro da antropóloga Laura Nader, da UC Berkeley, que desenvolveu o conceito “processos de controle” – como indivíduos e grupos são persuadidos a participarem de sua própria dominação). Após entrevistar fabricantes de caça-níqueis, arquitetos de cassinos e apostadores inveterados, entre outros, Schüll conclui, em seu livro Addiction by Design, que a atração magnética dos caça-níqueis se deve, em parte, a suas características profundamente interativas. Especialistas da indústria dos jogos de azar falam abertamente de maximizar o “tempo no dispositivo”. Conforme dito por um consultor a Schüll, “o segredo é a duração do jogo. Quero te manter lá o tempo que for humanamente possível – esse é o truque, é isso que te faz perder” (Schüll, 2012: 58; ver também Nader, 1997).

O professor de negócios da New York University, Adam Alter, autor de Irresistible: The Rise of Addictive Technology and the Business of Getting Us Hooked (2017), argumenta que o botão “gostei” (like) do Facebook tem um efeito comparável. Cada postagem, foto ou atualização do status é uma aposta que pode resultar em perda total (nenhum “gostei”) ou no grande prêmio (viralizar). Os “retweets” do Twitter, os corações do Instagram e as visualizações do YouTube funcionam da mesma maneira (vale mencionar que o YouTube, da Google, e a Amazon também estão fazendo esforços agressivos para açambarcar o mercado juvenil).

No mês passado, apenas três semanas antes do Natal, o Facebook divulgou um comunicado anunciando a chegada do “Messenger Kids”. De acordo com a empresa, o aplicativo foi desenvolvido com a consultoria de pais de família e “especialistas em cuidados parentais” para que fosse seguro para crianças. A plataforma também prometeu limitar a coleta de dados das crianças e não usar o aplicativo para anúncios.

Tais promessas não são sinceras. É óbvio que o “Messenger Kids” é parte de uma estratégia de longo prazo, pensada para viciar as crianças em hábitos de networking social (“likes”, mensagens de texto, bolhas de filtro) o mais cedo possível. Em outras palavras, a ideia é aumentar os níveis de dopamina das crianças nos anos formativos – de modo que picos frequentes desse neurotransmissor se tornem uma parte normal de suas vidas. Uma vez que isso aconteça, será ainda mais fácil para as futuras empresas de redes sociais (que são fundamentalmente agências de publicidade) alimentarem o vício comportamental de bilhões com propaganda personalizada.

Em 2016, a Academia Americana de Pediatria publicou recomendações definindo limites no tempo de utilização de equipamentos eletrônicos por crianças, observando que “os problemas começam quando o uso dessas mídias substitui a atividade física, a exploração prática e a interação social face-a-face no mundo real, elementos cruciais para a aprendizagem” (AAP, 2016).

O “Messenger Kids” pode mergulhar ainda mais as crianças no mundo virtual. Talvez o Admirável mundo novo de Aldous Huxley tenha chegado – pois, como o presciente crítico de mídia Neil Postman escreveu, na visão de Huxley, não é necessário nenhum Big Brother para privar as pessoas de sua autonomia, maturidade e história. Conforme ele percebeu, as pessoas chegarão a amar sua opressão, a adorar as tecnologias que anulam sua capacidade de pensar… Como ressaltou no Regresso ao admirável mundo novo, os libertários civis e os racionalistas que estão sempre alertas para se opor à tirania “não foram capazes de levar em conta o apetite quase infinito do homem pelas distrações” (Postman, 1985: vii).

No mês passado, Chamath Palihapitiya disse à CNBC que seus filhos de 5 e 9 anos estão proibidos de usar equipamentos eletrônicos, mesmo que peçam constantemente. Bill Gates, Jonathan Ive (designer do iPad), o falecido Steve Jobs e muitas outras figuras bem conhecidas da indústria da tecnologia também impuseram limites estritos ao uso dessas mídias por seus filhos. Eles entendem claramente os efeitos colaterais cognitivos, psicológicos e emocionais dos aparelhos que ajudaram a criar. Se esses célebres personagens tomaram medidas drásticas para proteger seus filhos do lado negro da vida virtual, talvez mais de nós devêssemos seguir seu exemplo.

Para além do imediatismo dos nossos hábitos e práticas individuais e familiares, assoma-se um problema social maior: a possibilidade de um futuro em que as instituições autoritárias tenham a enorme capacidade de moldar as ideias, atitudes e comportamentos de públicos aprisionados por suas próprias compulsões.

Referências
Allen, Mike (2017). “Sean Parker Unloads on Facebook.” Axios.com, 9 de novembro.
Alter, Adam (2017). Irresistible: The Rise of Addictive Technology and the Business of Getting Us Hooked. Nova York: Penguin Books.
García-Martínez, Antonio (2017). “I’m an Ex-Facebook Exec: Don’t Believe What They Tell You Maabout Ads.” The Guardian, 2 de maio.
McNamee, Roger (2018). “How to Fix Facebook–Before It Fixes Us.” Washington Monthly, janeiro.
Nader, Laura (1997). “Controlling Processes: Tracing the Dynamic Components of Power.” Current Anthropology 38(5): 711-738.
Palihapitiya, Chamath (2017). “Money as an Instrument of Change.” Palestra apresentada na Stanford Graduate School of Business, 13 de novembro.
Postman, Neil (1985). Amusing Ourselves to Death: Public Discourse in the Age of Show Business. Nova York: Penguin Books.
Schüll, Natasha (2012). Addiction by Design: Machine Gambling in Las Vegas. Princeton, NJ: Princeton University Press.

*Roberto Gonzalez - Professor de antropologia na San José State University. É autor de diversos livros, entre eles Zapotec Science, American Counterinsurgency e Miltarizing Culture. Para entrar em contato, roberto.gonzalez@sjsu.edu.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

EUA CONTRATA TERRORISTAS | O Pentágono contrata mais de 10.000 antigos jiadistas do Daesh

EUA CONTRATA TERRORISTAS | O Pentágono contrata mais de 10.000 antigos jiadistas do Daesh


Pentágono incorporou entre 10 e 15.000 antigos jiadistas do Daesh (E.I.) à sua nova Força de Segurança de Fronteiras (Syrian Border Security Force) na Síria.

Um número equivalente de antigos jiadistas do Daesh (EI) foi enviado para o Afeganistão.

A Força de Segurança de Fronteiras (SBSF) é composta principalmente de soldados das Forças Democráticas Sírias (SDF), elas próprias constituídas em torno das Unidades de Proteção do Povo (YPG), a milícia irmã do PKK na Síria.

Desses soldados, 230 receberão treino pelo exército dos EUA.

Assim, mais de 10.000 antigos jiadistas do Daesh combaterão ao lado dos Curdos sírios sob o comando directo do Pentágono.

O Pentágono pretende prosseguir o seu próprio projecto do «Rojava» e não o da França. Seria um Estado simulado, comparável aquele não reconhecido do Curdistão iraquiano, organizado segundo o modelo anarquista de Murray Bookchin.

Com esta medida, os antigos jiadistas do Daesh tornaram-se, portanto, subitamente atlantistas, laicos e anarquistas.

Voltaire.net | Tradução Alva
Portugal | OS LUGARES ONDE MARCELO NÃO VAI

Portugal | OS LUGARES ONDE MARCELO NÃO VAI



Marcelo parece omnipresente. E nas televisões ainda mais. Mas por detrás dessa aparência há uma outra realidade, onde não o irão decerto apanhar a tirar “selfies.” É onde houver trabalhadores em luta, como as operárias da Gramax, ou os professores, ou os enfermeiros, ou os operários da Autoeuropa. Aí os seus “afectos” não têm lugar.

O dom de Marcelo é ir a todo o lado sem nunca estar em lado nenhum. Omnipresente na comunicação social, falta à chamada sempre que o interesse nacional coincide com os interesses da classe trabalhadora. Onde está Marcelo quando as populações se batem pelos correios do povo? Porque não dá os seus «afectos» às quase 500 trabalhadoras da Gramax? Meio milhar de operárias com meses de salário em atraso defendem a dignidade e os postos de trabalho de um processo fraudulento de insolvência. Quando, em piquetes de 24 horas, à chuva e ao frio, desafiando a fome, a incerteza e muitos dramas familiares, as operárias da antiga Triumph impedem o roubo da maquinaria estão também a impedir a destruição do aparelho produtivo português.

Porque será que Marcelo, sempre tão palavroso sobre moda, jogos de futebol, restaurantes e exercício físico, nada tem a dizer sobre esta matéria? Porque será que o Presidente, incansável na sua digressão afectiva, não vai a Sacavém?

A resposta é que Marcelo só visita vítimas e voluntários, e as inderrotáveis mulheres de Sacavém não aceitam ser uma coisa nem outra. O que lhe sobra em «afecto», falta-lhe em solidariedade.

As operárias da Triumph são apenas um exemplo: podíamos falar dos operários da Seda Ibérica, neste momento em greve contra os horários desumanos, da Autoeuropa, que não abdicam do direito ao fim-de-semana e à família, dos professores, dos enfermeiros, dos trabalhadores da administração pública… Por mais elementarmente justa que seja a causa, Marcelo faz ouvidos moucos a quem luta.

A MÃO QUE TIRA A SELFIE

De costas para tudo o que aparece na selfie, Marcelo cultiva uma popularidade inventada, alimentada e dirigida há muitos anos pela comunicação social da classe dominante. Os afectos podem até ser genuínos, mas a mão que tira a selfie é da TVI. Por isso, a atenção mediática e a atenção presidencial que merecem as lutas dos trabalhadores estão sempre ao mesmo nível.

Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie.

Mas que ninguém pense que Marcelo está num concurso de misses. A sua popularidade não é um fim em si mesmo: são munições parcimoniosamente poupadas em Sacavém para, quando for mesmo preciso, disparar em defesa dos patrões. Até lá, Marcelo prefere causas menos problemáticas, ou «consensuais», como lhes chama. Marcelo comporta-se como os «famosos da televisão» que, quando se trata das operárias da Triumph, #AdoptamEsteSilêncio porque a TVI não lhes preparou uma campanha mediática, ou porque, coitadinhos, não sabiam, ou, simplesmente, porque fica mal a uma estrela andar metido em política. Uma coisa é alimentar os sem-abrigo, combater o desperdício alimentar, dar afecto aos pobrezinhos e todas as demais benevolências paternalistas, estritamente voluntárias, que em afectados movimentos ou i pê ésse ésses, aristocráticas e sempre descendentes, atirem um carapau enquanto escondem a cana de pesca atrás das costas. Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie. Outra coisa são 500 famílias atiradas para a miséria que exigem (atenção, exigem) os postos de trabalho e os salários em atraso. Isso é política. E na carreira de apresentador de televisão, como na de Marcelo, não interessa.

Neste caso, interessava. A atenção de Marcelo contribuiria para alterar a postura do governo do PS que, ocupado a ajudar financeiramente os milionários da Uber e da Brisa, lava as mãos do crime que está a acontecer em Sacavém. Mas, já sabemos, o que Marcelo tem para oferecer aos trabalhadores são afectos e aquilo de que os trabalhadores precisam é solidariedade. De trabalhadores para trabalhadores, iguais para iguais.

*Em O Diário.info 18.01.18 - Fonte: http://manifesto74.blogspot.pt/2018/01/os-lugares-onde-marcelo-nao-vai.html#more
PORTUGAL | Rui Rio é "voz dessa direita conservadora", acusa Catarina Martins

PORTUGAL | Rui Rio é "voz dessa direita conservadora", acusa Catarina Martins

A coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, acusou hoje o presidente eleito do PSD, Rui Rio, de ser "a voz da direita conservadora" que "quer voltar ao bloco central" e ao" monopólio do negócio".

Orecém-eleito líder do PSD "é, precisamente, a voz dessa direita conservadora, dessa direita dos negócios que quer voltar ao bloco central, ao monopólio do negócio, que faz com que o poder político se vergue sempre face ao poder económico", afirmou.

Discursando em Fafe num encontro em que foi discutida a política florestal, Catarina Martins defendeu que o BE tem construído "um caminho que é difícil" para "uma economia mais justa, que responda melhor pela vida das pessoas, que tenha um país menos desigual".

"E isso são escolhas económicas que afrontam sempre o poder económico: é assim na floresta, como é assim em tudo", destacou, acrescentando: "A direita está incomodada, porque sabe que, cada vez que nós conseguimos que as pessoas que aqui vivem, que aqui trabalham, vivam um bocadinho melhor, significa que temos a coragem de afrontar os grandes interesses económicos que têm mandado sempre no país".

Para a dirigente partidária, "não é por acaso que a direita tem um incómodo crescente com a existência de acordos que à esquerda também influenciam e determinam parte da ação do Governo".

Catarina Martins assinalou depois que "a floresta é um combate político dos mais duros que existem".

"Se durante tanto tempo se fez de conta que a floresta não tinha nada a ver com a política foi precisamente para esconder o que foi feito, para dar sempre mais poder aos mesmos", insistiu.

Recordou também que "a floresta é um espaço de riqueza económica que é disputado", observando que "a mistura de abandono do interior e de paternalismo serve para que os grandes interesses económicos ocupem todo o espaço".

"E são eles que o estão a ocupar quando a política falha", exclamou.

A coordenadora do BE considera, por outro lado, que as atuais entidades de gestão florestal "não têm nenhuma relação com o espaço concreto" e "são uma forma de os fundos financeiros comprarem território para o explorar de uma forma que não criam emprego e riqueza nos locais onde fica a floresta".

A proposta do BE, defendeu Catarina Martins, passa pela criação de unidades de gestão florestal e "pela intervenção pública, em que o Estado assume responsabilidades para com a propriedade da terra, quando ela está abandonada, porque tem de o fazer".

A dirigente defendeu, por isso, que o Estado deve assumir "a responsabilidade de juntar os proprietários locais e de, com eles, criar regras que protejam o território e que distribuam a riqueza que a floresta cria por essas populações".

Lusa em Notícias ao Minuto - ontem
LISBOA | Propostas da Cinemateca para Fevereiro convidativas como sempre

LISBOA | Propostas da Cinemateca para Fevereiro convidativas como sempre


O trabalho da Cinemateca de Bolonha, o cinema norte-americano dos anos 70 e uma edição especial das Histórias do Cinema dedicada aos formatos do cinema (formatos de película cinematográfica e proporções de imagem) com Jean-Pierre Verscheure são os grandes destaques da programação da Cinemateca para Fevereiro de 2018.

Com o tema “As Cinematecas Hoje” será inaugurado em Fevereiro uma rubrica inserida nas “comemorações dos 70 anos da Cinemateca Portuguesa e do Ano Europeu do Património Cultural”, através da qual se pretende homenagear e mostrar em Lisboa o trabalho de diferentes cinematecas ao longo do ano.

A Fondazione Cineteca di Bologna dá o pontapé de partida, com a inauguração de um ciclo de dez filmes marcada para as 21:30 do dia 05 de Fevereiro com a projecção de IL GATTOPARDO, de Luchino Visconti, que contará com a presença do director da Fondazione Cineteca di Bologna, Gian Luca Farinelli, que no dia seguinte fará uma conferência pelas 18:30 com o tema POR UMA CINEMATECA EM VIAGEM.

O ciclo American Way of Life: Vidas em Crise propõe 22 filmes (oito primeiras exibições na Cinemateca) que retratam uma época de profunda crise na sociedade norte-americana, a década de 70.

Uma crise política na Casa Branca (o escândalo Watergate e o abuso de poder de Richard Nixon) provocou um clima de desconfiança e paranoia nas suas instituições e relações sociais. Um ambiente que lembra em tudo o nosso presente mas que não encontra, na Hollywood actual, obras com o mesmo risco, a mesma visceralidade, ou o mesmo cunho pessoal. Esta é a altura certa, por isso, para revisitar um conjunto de filmes que falam, sem concessões, sobre o nosso tempo.

Em Fevereiro estão de regresso as Histórias do Cinema. Num modelo diferente do habitual, o conservador e especialista em história das técnicas de Cinema Jean-Pierre Verscheure estará em Lisboa entre 19 a 23 para apresentar cinco sessões sobre a HISTÓRIA DOS FORMATOS: um panorama histórico dos formatos do cinema incluindo formatos de película cinematográfica e proporções de imagem.

As sessões terão lugar na Sala M. Félix Ribeiro e são antecedidas de trechos de vários filmes exemplificativos da evolução dos diferentes formatos ao longo da História do cinema. Cada sessão contará com a projecção de um filme exemplificativo do formato abordado. Os filmes a apresentar são SAFETY LAST! (Fred Newmeyer, 1923), RANCHO NOTORIOUS (Fritz Lang, 1952), RIVER OF NO RETURN (Otto Preminger, 1954), WEST SIDE STORY, (Jerome Robbins, Robert Wise, 1961) e THE PLEDGE, (Sean Penn, 2001). Todas as sessões-conferência são apresentadas em inglês.

Zita Ferreira Braga | Hardmusica
UE-Marrocos: acordo de pesca inválido por incluir Sahara Ocidental

UE-Marrocos: acordo de pesca inválido por incluir Sahara Ocidental


Justiça Europeia considera acordo de pesca da União Europeia com Marrocos inválido porque inclui o Sahara Ocidental.

Na decisão publicada hoje (10.01.2018) (According to Advocate General Wathelet, the Fisheries Agreement concluded between the EU and Morocco is invalid because it applies to the Western Sahara and its adjacent waters) pelo tribunal de justiça Europeu é confirmada que a Europa violou a obrigação de respeitar o direito à autodeterminação. O tribunal Europeu não acredita que seja garantido que a exploração de recursos beneficie os saharauis.

No acordo de pesca UE/Marrocos, 91,5% das capturas totais previstas no contrato correspondem às águas do território ilegalmente ocupado por Marrocos desde 1975.

Segundo o comunicado publicado hoje o acordo de pesca entre a União Europeia e Marrocos não é válido, uma vez que se aplica ao Sahara Ocidental e às águas adjacentes, de acordo com as conclusões do conselho geral do Tribunal de Justiça da UE encarregado de analisar a decisão prejudicial de um tribunal britânico relativo ao pedido da organização “Campanha Sahara Ocidental”  (WSC), uma ONG que defende o reconhecimento do direito à autodeterminação do povo saharaui.

De acordo com Melchior Wathelet, membro do Tribunal da UE ao assinar esse acordo: 

“A União violou a sua obrigação de respeitar o direito do povo do Sahara  Ocidental à autodeterminação e a sua obrigação de não reconhecer uma situação ilegal resultante da violação desse direito.”

“O acordo de pesca e os actos que o aprovaram e aplicaram são incompatíveis com as disposições dos Tratados que obrigam a União a garantir que a sua acção externa proteja os direitos humanos e respeite estritamente o Direito Internacional”

Recorda Wathelet.

Além disso, continua nas suas conclusões, não estabeleceu “as garantias necessárias para garantir que a exploração dos recursos naturais do Sahara Ocidental beneficiará as pessoas desse território”.

O advogado-geral salienta que “a exploração da pesca pela União das águas adjacentes ao Sahara Ocidental, instituída e aplicada pelos actos impugnados, não respeita o direito à autodeterminação do povo saharaui”.

Esta conclusão resulta, de acordo com as suas conclusões, de que “até à data, o povo do Sahara Ocidental foi privado de exercer o direito à autodeterminação nas condições estabelecidas pela Assembleia Geral das Nações Unidas”.

“O Sahara Ocidental foi integrado no Reino de Marrocos por anexação e sem que o povo do território expressa-se a sua vontade livremente, já que o acordo de pesca foi concluído por Marrocos com base na integração unilateral do Sahara Ocidental em seu território e na afirmação que ele era seu soberano, o povo saharaui não descartou livremente seus recursos naturais, que é o que o direito à autodeterminação exige”

Lembra Wathelet.

Também observa que a maior parte da exploração planeada pelo acordo de pesca “quase exclusivamente cai nas águas adjacentes ao Sahara Ocidental”, uma vez que as capturas nessas águas representam aproximadamente 91,5% da captura total da exploração pesqueira previsto nesse acordo.

“Segue-se que a contribuição financeira paga pela União a Marrocos para o acordo de pesca deve beneficiar quase que exclusivamente o povo do Sahara Ocidental”, acrescenta o advogado, e depois insiste em que o acordo de pesca assinado pela UE “não inclui as garantias legais necessárias” para garantir que isso aconteça.

O procurador-geral do Tribunal Europeu decide sobre um pedido de decisão do Tribunal Superior de Justiça britânico, que solicitou ao Tribunal de Justiça Europeu que esclarecesse, se associações com as características da WSC têm o direito de questionar a validade dos actos da UE porque não cumprem os requisitos Direito Internacional e, em segundo lugar, se o acordo de pesca é válido à luz da legislação comunitária.

Nas suas conclusões, o procurador geral Wathelet propõe que o Tribunal de Justiça responda que é competente para avaliar se os acordos internacionais celebrados pela União Europeia são legais e que as associações com as características da Campanha do Sahara Ocidental têm o direito de colocar questões sobre os acordos como o da pesca com Marrocos. Além disso, o advogado conclui que o acordo não é válido porque se aplica ao território e às águas do Sahara Ocidental.

Marrocos boicota desde 1991 a realização do referendo que foi a base do acordo de cessar fogo assinado pelas partes e sob o auspício da ONU e da União Africana.

As violações gravíssimas cometidas contra a população saharaui pelas autoridades de ocupação são denunciadas quase diariamente pelas ong’s que acompanham este conflito.

É de salientar que apesar do terror a que é submetida a população saharaui resiste de forma não violenta esperando que a comunidade internacional cumpra os seus compromissos.

Isabel Lourenço | Tornado
GUINÉ-BISSAU | Cidadãos Inconformados exigem eleições gerais ainda este ano

GUINÉ-BISSAU | Cidadãos Inconformados exigem eleições gerais ainda este ano


Movimento cívico sai à rua este sábado (20.01) para defender realização de legislativas e presidenciais e renúncia do Presidente José Mário Vaz.

O movimento cívico guineense Cidadãos Inconformados manifesta-se este sábado com a realização de um comício em que vai exigir a realização de eleições gerais ainda este ano. Para os inconformados, movimento constituído na sua maioria por jovens dos liceus e das universidades e que se tem manifestado contra o regime em vigor na Guiné-Bissau, a realização de eleições legislativas e presidenciais "é a única saída para a crise política".

Em declarações à agência Lusa, o porta-voz do movimento, Sumaila Djaló, disse que, além da exigência de eleições gerais, vão voltar a defender a dissolução do Parlamento e a renúncia do Presidente José Mário Vaz. Para os inconformados, o chefe do Estado guineense "é o responsável 'número um' pela persistência da crise" no país.

Críticas à CEDEAO

No comício, que está marcado para as 17 horas, no Largo da Meteorologia, em Bissau, a organização promete também "atacar o comportamento da CEDEAO", pela forma como tem conduzido a mediação da crise guineense, disse Sumaila Djaló.

Djaló considera que a Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO) "tem de ser mais incisiva" na busca de uma solução para a crise que assola a Guiné-Bissau há cerca de três anos.

Na quinta-feira (18.01), uma delegação da CEDEAO deu por terminada uma missão de dois dias à Guiné-Bissaucom ameaças de sanções aos que dificultarem o fim da crise política.

Agência Lusa | em Deutsche Welle
DIAMANTES: UM MUITO SENSÍVEL INDICADOR SOCIAL PARA ANGOLA – II

DIAMANTES: UM MUITO SENSÍVEL INDICADOR SOCIAL PARA ANGOLA – II


Martinho Júnior | Luanda

A RENÚNCIA IMPOSSÍVEL

Negação (continuação)
Quero matar-me
e deixar que o não-eu
se aposse de mim

Mais do que um simples suicídio
quero que esta minha morte
Seja uma verdadeira novidade histórica
um desaparecimento total
até mesmo nos cérebros
daqueles que me odeiam
até mesmo no tempo
e se processe a História
e o mundo continue
como se eu nunca tivesse existido
como se nenhuma obra tivesse produzido
como se nada tivesse influenciado na vida
como se em vez de valor negativo
eu fosse Zero…

(continua)


6- Os negócios com diamantes garantiram uma parte substancial dos processos de assimilação “luso-euro-tropicais”, para além do fim do colonialismo e colapso da internacional fascista na África Austral, até aos nossos dias, abrindo espaços não só à continuidade dos processos de assimilação colonial, mas também aos meandros das “transversalidades” capazes de propiciar neocolonialismo, até por que negociar diamantes é inerente ao capitalismo, às elites burguesas conformadas à “civilização judaico-cristã ocidental” e às suas eternas disputas… “os diamantes são eternos”, recordam todos os que aplicam à letra a máxima “o segredo é a alma do negócio”!...

Com os diamantes de Angola propiciam-se todo o tipo de enredos nesse sentido…

De certo modo, particularmente os relacionamentos bilaterais entre Angola e Portugal têm que ver com essas formas quase sempre secretas de cultivar os interesses e as conexões que se adaptam ao cruzamento entre clãs… digo bem cultivar, pois esses enredos assumem, em função da sua continuidade, um carácter antropológico e os etno-nacionalismos, com todo o oportunismo de que se nutrem e fazem fermentar, tiram partido da natureza dos enlaces e negócios, conforme se pode aperceber mais facilmente com as ligações entre famílias, incluindo “famílias sócio-políticas” (por exemplo o clã de Mário Soares com o clã de Savimbi)…

Esses relacionamentos foram sendo fomentados estimulando a burguesia, a classe média e a pequena burguesia dos dois países e, no caso angolano, constituem uma das bases da formulação das “novas elites” (ou os “100 novos ricos”) propiciadas desde o Acordo de Bicesse (assinados a 31 de Maio de 1991) pelos impactos neoliberais, tanto por via do choque savimbiesco, quanto, após ele, em plena época sucedânea de terapia neoliberal!

É evidente que essa apetência veio detrás e teve configurações evolutivas marcando a cadência das épocas, das conjunturas e dos cenários.

Muitas das tensões internas na sociedade angolana, nas instituições angolanas, no ambiente sócio-político angolano, inclusive as tensões que se radicalizaram, derivam dos interesses em relação aos diamantes e aqueles que se assumiram pela dignidade e pelo respeito para com o estado angolano enquanto seus servidores e mesmo depois, sem se deixaram corromper e servindo com fidelidade, correram sempre o risco, pela sua atipicidade, de sofrerem as consequências, na “esquina mais próxima” (lembrando ainda as preocupações do presidente Agostinho Neto)…

7- Os ensinamentos recolhidos por via do processo 105/83 e o comportamento do próprio poder em relação ao quadro de oficiais instrutores desse processo, são um testemunho vivo desse tipo de enredos, que os oficiais, militantes do MPLA, souberam durante décadas silenciar por que a unidade nacional, a independência e a soberania, associada à preservação da dignidade que é devida a quem está à frente do estado, está acima desse patamar histórico, antropológico, sociológico e psicológico em que me estou a situar (desvendei e continuo a desvendar quanto a partir do exterior haviam tentações para explorar a fraqueza, as vulnerabilidades e a inexperiência dos angolanos)…

De qualquer modo, ressalvando sempre a imperiosa necessidade de unidade e coesão nacional e integridade do próprio MPLA, já se passaram mais de trinta anos sobre os acontecimentos e, constatando-se quão importante é voltar ao rigor da gestão do estado angolano enquanto fiel depositário dos interesses do povo angolano, é oportuno relembrá-los com o fito de contribuir pedagogicamente para “corrigir o que está mal e melhorar o que esta bem” e para afirmar que a corrupção em Angola, tendo que ver com este tipo de ambientes, tem um espaço de manobra incomensurável, que afecta múltiplas franjas da sociedade e é de há décadas um poderoso tecido canceroso também dentro do estado, algo impossível de por completo se poder extirpar, até por que é movido a partir do exterior, a partir do “lobby” dos minerais e do próprio cartel, sem outras voltas a dar!…


8- Essa é uma das razões profundas que me tem levado a evidenciar a justeza do internacionalismo e da solidariedade do povo cubano para com África e sobretudo para com Angola, para além dos acontecimentos históricos comuns na saga de libertação do continente, algo que o próprio comandante Fidel sublinhou em tempo oportuno em plena ONU: a ajuda internacionalista cubana tinha e tem o sentido dum imenso resgate, “de Argel ao Cabo da Boa Esperança”, com o fito de contribuir para arrancar os povos africanos dum passado de trevas e assumir um direito, o direito humano de ter acesso ao desenvolvimento sustentável, em pé de igualdade com todos os povos da Terra!...

A lógica com sentido de vida, nada tem a ver com mercantilismos, nem com os tristes mercantilismos que projectaram no passado colonialismo e escravatura, mas também assimilados e indígenas enquanto “condenados da Terra”, nem os do tempo presente projectados pelas assimilações possíveis com o capitalismo neoliberal e seu cortejo de mercenários e também “diamantários” de ocasião, do após 25 de Novembro de 1975 em Portugal e do após Bicesse (31 de Maio de 1991)!

Para a África Central, os Grandes Lagos, o Congo e a África Austral, foi o Comandante Che Guevara e os que o seguiram à época que, ombro a ombro com os revolucionários africanos do Movimento de Libertação, inauguraram a internacional progressista informal que culminaria com o colapso definitivo do “apartheid” em África, com imensas provas dadas de dignidade, coerência e integridade!

Essa linha de demarcação contribui para mim também para vincar uma fronteira invisível entre o que é do Não Alinhamento activo e o resto, algo que passa pela cultura pessoal do carácter e do comportamento: em relação ao rigor, minha cultura pessoal diz tudo, em relação aos tráficos e à corrupção minha cultura pessoal diz nada e por isso, enquanto patriota e oficial, os combati alimentando as minhas mais perenes e justas convicções!

9- O processo 105/83 não começou com os diamantes!


Ficou visível publicamente um alvo secreto do trabalho da Contra Inteligência Geral da Segurança do Estado, o apartamento do edifício Texaco à Maianga, que havia sido ocupado pelo funcionário e migrante goês (e de nacionalidade portuguesa) do consulado dos Estados Unidos em Luanda (acreditado em função do regime colonial), que dava pelo nome de Raul António Dias, padrinho de casamento de Carlos Fragata.

O goês Raul António Dias tinha migrado para Angola pois era um elemento implicado com o colonialismo português e avesso à tomada de Goa, Damão e Diu pela União Indiana, ou seja, um elemento que para ter uma trajectória que mereceu a integração no Consulado dos Estado Unidos em Luanda, só poderia estar “filtrado” antes de mais pela PIDE/DGS fascista e colonial, dado os sintomas de seu processo migratório!

Nesse apartamento em relação ao qual o Secretário de Estado da Habitação de então, Diandengue, levou uma interessada que o havia denunciado para o ocupar com o suporte público dos serviços de reportagem da ainda Televisão Popular de Angola, estava arrecadado parte do espólio da documentação desse consulado, numa altura (oito anos depois da independência) em que os Estados Unidos ainda não haviam reconhecido Angola…

Dada a ausência do território nacional do Raul António Dias, o afilhado Carlos Fragata e outro cidadão angolano empregado e assalariado para o efeito, o velho Pedro Capita, haviam ficado encarregues de o proteger, sem alguma vez darem oficial, ou oficiosamente a conhecer o recheio que por lá se encontrava.

“Queimado” publicamente pela reportagem da TPA o expediente secreto que a Contra Inteligência levava a cabo em relação a esse enredo, em função do inopinado “curto-circuito” provocado pelo Secretário de Estado da Habitação, ficou em parte comprometido, pelo que não havia outra alternativa senão, entre outras medidas então tomadas, deter os implicados, até por que Carlos Fragata residia no mesmo andar, paredes meias com esse recheio…

Por outro lado, outro frequentador do referido apartamento, Armando Viegas, amigo de Carlos Fragata e seu colega enquanto atleta e jogador de hóquei em patins, foi também detido pois já antes havia sido detectada a sua contínua frequência nesse enredo…

É Armando Viegas que sob interrogatório começa a descobrir a pista sobre os diamantes, denunciando Hadoindo da Silva Correia Miranda, antigo administrador de Cacuso no tempo colonial, como um dos partícipes em tais negócios na altura considerados de ilícitos e, quando se começou a desenrolar o “novelo”, foi através dele que se detectou Fernando Margarido Pires (o “Fernando do Soqueco”) e o “nó” que constituía o então “Stand Univendas”, de que era administrador Fernando Gonçalves Ribeiro de Sousa, irmão de outro traficante, António Augusto Gonçalves de Sousa, “Feroz”, (actual proprietário do Sol Dourado), eles sim traficantes de maior grandeza que na altura se encontravam ausentes de Angola (e por isso foram julgados e condenados à revelia)…

No cofre do “Stand Univendas” a equipa da Contra Inteligência Geral que havia sido colocada nas Operações da Segurança do Estado para instruir o processo 105/83, encontra uma autêntica “bíblia” dos negócios de tráfico ilícito de diamantes correntes daquele grupo (características, peso e qualidade dos lotes, os implicados nos negócios, valores correspondentes a cada transacção, as formas de pagamento, transporte, distintas “moedas de troca”, etc…), com implicações internacionais e por isso recebeu ordens de continuar as investigações “até às últimas consequências” (?)…

As características humanas dessas redes encobertas de negócios, tinham inclusive “experts” ao nível do “velho” Armindo Leitão da Silva, que aos primeiros sinais procurou por todos os meios fazer-se sair de forma clandestina de Angola (tentando corromper homens de mão) em direcção a Portugal, mas não evitou sua detecção por parte dos oficiais instrutores, através de expedientes de contra inteligência que desenvolveram a “contrarrelógio” com vista à sua detecção e captura (algo que se conseguiu em relação a uns, falharia em relação a outros, mas dá ideia do pânico que a acção do 105/83 provocou entre os traficantes “luso-euro-tropicais”)!

10- O 105/83 foi na altura um manancial de referência sobre o tráfico ilícito de diamantes e de moeda, com múltiplas implicações, correspondendo a uma vasta radiografia humana das redes de traficantes da altura e o trabalho levado a cabo pelos oficiais instrutores, possibilitou entre outras pequenas vitórias, diminuir a fluência dum comércio que fugia ao controlo do estado angolano em prejuízo dos seus interesses, da empresa estatal de diamantes e do povo angolano e logicamente pressionar as apetências de corrupção e assimilação que isso recriava nos angolanos!

Foi um trabalho patriótico que provocava por si, sem qualquer dúvida, ondas de choque na sociedade angolana, em várias áreas do país, particularmente em algumas das mais vulneráveis, onde os negócios eram de há muito mais intensos, tudo reflectindo as conexões externas e os seus fluxos cognitivos, inclusive de inteligência!...

Em função desse expediente levado em tempo a Tribunal Popular Revolucionário, no que ao tráfico ilícito de diamantes e de moeda se pôde aperceber, tornou-se possível aferir e avaliar:

Enredos de suporte bancário em vários países (Angola, Portugal, Bélgica e Suíça sobretudo), envolvendo entidades ao nível, dum Union des Banques Suisses e do Trade Development Bank (no caso da Suíça);

Indícios de actividades de conexão a diversas redes de inteligência operando em Angola, Zaíre, África do Sul, Portugal e Bélgica, algumas delas existindo em função de conexões do cartel ao nível dum Maurice Tempelsman e de serviços como os dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Portugal e África do Sul (regime do “apartheid”);

O conhecimento do “modus operandi” dessas redes com implicações em três companhias aéreas: TAAG, TAP e Sabena (esta última a partir de Kinshasa);

Quanto os angolanos eram prejudicados sob o ponto de vista económico e financeiro pela actuação nefasta dessas redes, uma vasta sabotagem aos interesses socialistas nacionais e a algumas das instituições mais sensíveis do país;

Quanto os interesses externos, entre eles dos governos portugueses resultantes do 25 de Novembro de 1975, estavam interessados nesse tipo de enredos clandestinos e desgastantes, até por que através deles além de se auto nutrirem inclusive em termos de recolha de informação, estabeleciam nexos com outros “parceiros” entre eles dos Estados Unidos, do “apartheid” e do clã Mobutu do Zaíre (neste caso inclusive na sua actuação para dentro de Angola, tirando partido dos vales do Cassai e do Cuango);

Quanto os tráficos ilícitos eram um mecanismo de pressão sobre a sociedade angolana no sentido de indelevelmente, através duma sistemática e corrosiva manobra clandestina que permitia a injecção contínua do dólar dos Estados Unidos a corromperem, vulnerabilizando as políticas de rigor dum estado que a todo o transe, segundo o que se assumia publicamente, procurava ganhar orientação socialista.

De facto a operação de desestabilização em curso e que se punha a nu, dava continuidade através de sequelas com múltiplos enredos humanos de assimilação que se arrastavam desde o colonialismo, ao carácter do Exercício ALCORA e por isso não era de admirar entre outras questões, que o acordo secreto entre o colonialismo português e o “apartheid” só muito recentemente tenha começado a ser exposto, tal como o curriculum de inspectores da PIDE/DGS que se passaram para a África do Sul (Óscar Cardoso e Fragoso Allas) e Brasil (Ernesto Lopes Ramos e Rosa Cavaco)!

11- A manobra da acusação de “golpe de estado sem efusão de sangue” que recaiu sobre os oficiais instrutores do processo 105/83 (através do processo 76/86), tem que ver com tudo isso, pelo que me assistiu e assiste o direito e o dever de sublinhar em relação a tudo isso, que “a história me absolverá” e, “quando um dia se fizer luz sobre esse assunto, que seja o MPLA a ganhar com o seu mais que devido esclarecimento”!

Foi precisamente dessa forma que assumi toda a defesa possível da causa que nutria os meus passos, inclusive dentro das prisões por onde passei e depois de condenado, em Bentiaba, quando decidi interromper um discurso perante os reclusos do então Ministro do Interior, camarada Kundiphaima, ainda que sob a mira das armas de sua própria escolta.

É evidente que as ameaças e os riscos se avolumaram depois de 1986, em reforço da subversão e desestabilização de Angola, num crescendo que Bicesse não parou, pelo contrário, contribuiu para incentivar…

Foi nesse húmus que, a título de exemplo, foram fermentando os enlaces entre os clãs familiares de Soares e de Savimbi, antes e durante o choque neoliberal por ele protagonizado, numa autêntica sequela “inteligente” do Exercício ALCORA!…

Esse é um conjunto de razões que, entre outras mais, me leva a ser muito crítico para com o ambiente do Acordo de Bicesse e seus resultados, sabendo que o poder em Angola, perdendo seus aliados naturais que partilhavam os projectos de edificação do socialismo, ficava à mercê de interesses que fomentavam a contínua fragilidade e vulnerabilidade da sociedade angolana, incluindo nas suas “transversalidades”, podendo abrir espaços e fracturas inclusive a correntes que podiam estar (e continuam a estar) tentadas à eclosão, entre outros fenómenos mais recentes, duma “revolução colorida”, ou “primavera árabe” em Angola!

Todos os processos “transversais” de longa duração contra Angola reflectem a “transversalidade” clandestina referente aos infindáveis negócios com diamantes e outras riquezas naturais de Angola, não sendo alheios a isso os sucessivos grupos da FLEC, ou o Protectorado Lunda Tchokwe, que se atirou de forma tão ignóbil, mentirosa, alienada e ideologicamente diversionista contra os oficiais instrutores do 105/83, entre eles eu próprio.

Outro fenómeno que se prende a isso é a migração ilegal proveniente do Sahel via RDC que penetra principalmente ao longo do curso internacional do Cuango e em direcção sul, para dentro da bacia do Cuanza, afectando directamente as províncias de Malange, das Lundas e do Bié e indirectamente outras mais, Luanda incluída!

Os tráficos de toda a ordem, envolvendo quantos deles o que se prende à clandestinidade dos negócios de diamantes, são registos muitas vezes “behind the scenes”, que contribuem para a complexidade dos enredos dos fenómenos sócio-políticos e humanos.

Por isso não poderia ser eu a contribuir ainda mais para essa desestabilização com enlaces cujos húmus conhecia tão bem, pelo que decididamente defendi e defendo o presidente José Eduardo dos Santos e o seu exercício, numa época que ele teve de enfrentar tantos desafios, tantos riscos, tantas armadilhas, ingerências, manipulações, fragilidades e vulnerabilidades, sabendo de antemão que o tempo do silêncio (que durou praticamente mais de 30 anos) iria um dia acabar e as razões de estado, as razões que assistem a Angola, voltariam a impor-se por si: “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”!...

Martinho Júnior - Luanda, 13 de Janeiro de 2018

Ilustrações:
As quedas de água de Tazua, no rio Cuango;
Passaportes angolanos, instrumentos indispensáveis para os “nós” do sistema de redes humanas dos negócios clandestinos de diamantes, cujos expedientes podem afectar os Serviços de Emigração e Fronteiras;
Garimpeiros ilegais que infestam rios como o Cassai, o Cuango e o Cuanza, assim como seus sistemas de afluentes e subafluentes;
Minha Declaração de Liberdade pondo fim a 5 anos de injusta prisão… “A história me absolverá”!;
Os diamantes aluviais possuem normalmente um máximo de 5 karats e os do Cuango são quase sempre de um amarelo-limão.

Referências:
Diamantes: um muito sensível indicador social para Angola – I – http://paginaglobal.blogspot.pt/2018/01/diamantes-um-muito-sensivel-indicador.html
PROCESSO 105 (1985), FIM DO PODER ECONÓMICO DO POVO LUNDA TCHOKWE – http://paginaglobal.blogspot.com/2012/08/processo-105-1985-fim-do-poder.html